No ano em que eu nasci a Argentina sagrou-se campeã do mundo de futebol pela primeira vez. Estávamos em 1978 e ao país das "pampas" cabia, também pela primeira vez, a organização do mundial. Um jovem "pequenote" de apenas 17 anos ficou frustrado por não ter sido convocado pelo seleccionador César Luis Menotti - o seu nome era Diego Armando Maradona. O mundo ainda não tinha ouvido falar dele, mas não tardaria muito até que este nome se tornasse habitual nas bocas do mundo inteiro: "Deves achar que és o Maradona, não?".
Com apenas 17 anos Maradona ficava de fora dos convocados e não pôde assim repetir o feito de Pelé em 1958 pelo Brasil - sagrar-se campeão do mundo sem ter completado ainda 18 anos. Menotti acabou por convocá-lo sim, mas para o campeonato do mundo de sub-20 que se realizou no ano seguinte no Japão. A Argentina venceu a prova, e Maradona foi considerado o melhor jogador do torneio.
Seria preciso esperar mais alguns anos para que o talento único de Diego explodisse de forma épica no maior palco possível do futebol. Para trás ficava o seu início nos Cebolitas, a passagem pelo Argentino Juniores, e claro, pela Bombonera (mítico estádio de Buenos Aires, do Boca Juniors). Maradona jogou no pior período possível do futebol para génios como ele - os tempos dourados do "futebol arte" já tinham terminado, e ainda não tínhamos chegado ao tempo em que as maiores estrelas começaram a ser protegidas em campo pelas regras. Quer isto dizer que Maradona foi o futebolista que mais faltas sofreu e que mais entradas duras e e selvagens teve de sofrer em campo. Os cartões amarelos e vermelhos não saiam com a facilidade dos dias de hoje, e as lesões foram-se acumulando na sua passagem pelo Barcelona, no início dos anos 80, e no campeonato do mundo de 1982, realizado em Espanha.
Tudo teria sido muito diferente na vida de "Dieguito" e no nascimento de um mito (talvez incomparável) se Maradona não tivesse ingressado no Nápoles, em 1984. Nessa altura a equipa italiana lutava para não descer, e não tinha um único título nacional no seu palmarés. Nunca um jogador sozinho fez tanto por uma equipa quase desconhecida. Ainda hoje, e para sempre, Maradona é um deus na cidade do sul de Itália. Com ele, o Nápoles conquistou os dois únicos "scudettos" (campeão nacional de Itália) e ainda uma taça uefa, para além de taças de Itália. Mas mais dos que os títulos e a frieza dos números, nada como ver Maradona em campo para perceber o que o tornava tão único e sobre-humano.
Este foi considerado o golo do século, e na altura Maradona não driblou um grupo de sete desconhecidos num qualquer jogo sem interesse no meio de um campeonato nacional. Foi diante de 100 mil espectadores, em pleno campeonato do mundo, e frente à Inglaterra - isto depois de ter marcado o célebre golo "com a mão de deus".
Na final, o seleccionador alemão Franz Beckembauer ainda tentou colocar o seu jogador mais talentoso (Lothar Matthaüs) a fazer marcação directa a Maradona - mas o génio argentino jogava e fazia jogar, e se não tinha espaço para marcar golos, foi dele a assistência para o golo decisivo de Burruchaga, rodeado por 6 alemães atónitos.
Para não me alongar mais deixo apenas esta sugestão (mesmo para aqueles que não gostem particularmente de futebol) - Maradona por Kusturica - um filme em que o realizador sérvio nos mostra o mito desta personagem como ninguém.
Deixo apenas uma nota final para ajudar a perceber a iconografia do futebol através do carisma deste jogador. Itália - 1990, nas meias finais do campeonato do mundo a Argentina, liderada por Maradona, vai defrontar a Itália no S. Paolo (estádio de Nápoles). Os tiffosi (adeptos italianos) napolitanos ficaram divididos entre as duas selecções, chegaram a fazer-se sondagens para perceber por quem iriam torcer. Não há registos de outro fenómeno assim...

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